CRISE PANDÉMICA

A crise que conhecemos hoje é sintoma de uma grave patologia. A anamnese revela-nos que esta crise não veio ontem de um mercado longínquo, mas tem causas ecológicas, sociais e políticas mais profundas. O diagnóstico: não estamos a ser atingidos, hoje, de forma igual. O prognóstico: se amanhã fizermos como fizemos ontem, novas pandemias ou outros riscos globais continuarão a surpreender-nos. O remédio é uma mudança radical do nosso modo de vida. Mas como?

Questões muito antigas são agora refeitas e as respostas não podem ser as mesmas de antes: quem sou eu e o que quero ser?  Qual o meu lugar, na minha comunidade, na  minha cidade, no  meu país, no mundo, no universo? Em que sociedade vivo e para onde esta caminha? Do quanto da minha liberdade posso abdicar, por respeito? Do quanto, daquilo de que usufruo, posso privar-me, por solidariedade? Quantos dos meus direitos podem ser restringidos, por segurança? Quem está protegido, "imunizado", mas quem está vulnerável, invisível, abandonado? Que valores são promovidos e que valores são desprezados? O que é o bem-comum, a felicidade, o medo, a vida e a morte? Como vivo e como quero viver?

Questões como estas serão discutidas no Filo-Lisboa, em oito diálogos entre filósofos portugueses, alemães e franceses. Tratam-se de questões que convocam cada um de nós a refletir sobre como podemos assumir um papel decisivo na construção de um novo mundo, um mundo diferente do que era antes - para não voltar ao "normal".

A pandemia, crise sanitária, emerge de uma constelação multidimensional de outras crises, todas interligadas entre si, que pretendemos discutir: crise ecológica, crise do Estado Social e da saúde pública, crise político-jurídica, crise económica, crise laboral, crise social  e crise de solidariedade. Também pretendemos discutir a arte na pandemia, bem como a pandemia na arte.

Inspirados pela correspondência aberta entre Einstein e Freud, “Por quê a guerra?”, promovida pela “Instituto Internacional de Cooperação Intelectual” da Liga das Nações, propomos a 8 influentes pensadores dos nossos tempos que convidassem alguém da sua escolha para um franco diálogo e troca de diferentes pontos de vista sobre estes problemas. Estes diálogos ocorrem por zoom nos dias 14 e 15 de novembro. O acesso é gratuito e não exige inscrição prévia. 

Estes diálogos serão acompanhados por uma ampla participação do público, que poderá participar do Prémio Filo-Lisboa 2020.

Alguns dos aspetos da crise pandémica apresentados abaixo serão discutidos pelos participantes dos "Diálogos". Os demais são propostos como tema para o Prémio Filo-Lisboa. 

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CRISE SOCIAL

Vulnerabilidade, Discriminação, Invisibilidade. "Os imunizados". O vírus invisível escolhe os invisíveis da sociedade. As vítimas da pandemia têm classe social, cor, idade, género, nacionalidade. Agentes produtivos são pacientes prioritários. Aqueles que já estavam abandonados deixam-se agora morrer. Na Europa foram os idosos, aqueles que já estavam doentes, os sem-abrigo, os refugiados. Além do aumento exponencial da violência doméstica, as mulheres foram afetadas no desemprego, no trabalho de linha de frente na saúde e no teletrabalho, acumulado com as tarefas domésticas da família confinada, de modo diferente dos homens. Nos países pobres e nas zonas de conflito, o vírus está a dizimar toda uma população carente sem possibilidade de isolamento e sem acesso a tratamento. Por toda a parte, ao tentar encontrar os “culpados”, a responsabilidade é transferida a uma alteridade ou àqueles que vêm "do estrangeiro", trazendo consigo o vírus. Como reconstruir a união social de uma comunidade que seja verdadeiramente cosmopolita? O que é a humanidade?

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CRISE DA SOLIDARIEDADE

A solidariedade tem uma dimensão social, política e jurídica. Na sua dimensão social, a solidariedade manifesta-se de modo espontâneo na entreajuda quotidiana entre vizinhos, parentes e amigos, assim como entre os que são completamente desconhecidos. A solidariedade social também vai para além do gesto espontâneo, organizando-se em associações civis de todo o tipo, de dimensão local, nacional, europeia, transnacional e global. Na sua dimensão política, a solidariedade expressa-se em medidas de ajuda entre Estados (financeira, logística, hospitalar etc.). Na sua dimensão jurídica, funda a Segurança Social e surge o princípio da União Europeia. Se a solidariedade social deu belíssimos exemplos na pandemia e mostrou a capacidade de as pessoas se unirem e reagirem a todo tipo de dificuldade quando as instituições falharam, a solidariedade política e jurídica revelou a sua fragilidade. Enquanto alguns Estados são profundamente atingidos, noutros sobram recursos. Conhecimento, possibilidades de testes, medicamentos, tratamentos e vacinas - que deveriam ser bens públicos globais - passaram a ser disputados como qualquer outra “mercadoria”. O conflito entre alguns países agrava-se, aumentando tendências nacionalistas, populistas, xenófobas, entre outras formas de irracionalidade, e limitando as possibilidades de uma reação internacional organizada.  Como reconstruir a solidariedade em todas as suas dimensões - social, política e jurídica, de extensão local, regional e global, de modo a que a comunidade internacional seja capaz de dar uma resposta concertada a ameaças globais como esta? ​​


CRISE DO ESTADO SOCIAL E DA SAÚDE PÚBLICA

"A mutação". O desmantelamento do Estado Social e a reforma da Saúde Pública são, para muitos autores, a causa principal das dificuldades na resposta à pandemia. O Estado foi durante anos acusado de ser ineficiente frente a um mercado capaz de regular tudo. Mas o mercado emudeceu na pandemia. São muitos a pedir o retorno do Estado Social, enquanto outros pedem, para além da proteção pública dos bens e dos serviços essenciais - entre os quais a saúde - um modelo menos centralizado e a invenção de novas formas comunitárias e de proximidade para a proteção destes bens (“o comum”), bem como de um sistema universal de proteção da saúde. Que Estado queremos? Que modelo de proteção da saúde queremos neste Estado - ou para além dele?


CRISE ECONÓMICA

Bruno Latour lembra-nos como diziam ser impossível travar a produção e a circulação, mas o vírus paralisou fábricas e aviões. Enquanto uns pedem o retorno à produção, outros, como ele, pedem uma nova forma de produção, de consumo e de seleção aos que recebem subsídios e financiamentos. Como realizar esta transformação? Que papel deve ter a economia na sociedade? Como controlar a economia, democraticamente? ​


CRISE LABORAL

Desemprego, precariedade, pobreza. Alguns consideram que a pandemia, com o confinamento, trouxe o desemprego e a precariedade; outros analisam que o que houve foi, como diz Supiot, um "choque de realidade". Nos países desenvolvidos, o Estado Social não foi capaz de responder à crise porque já estava fragilizado nos seus três pilares fundamentais: o Direito do Trabalho, a Segurança Social e os serviços públicos de bens essenciais (saúde, educação, energia, transportes etc.). Nos países em desenvolvimento, o aumento da pobreza extrema trouxe efeitos devastadores. Como construir um Direito do Trabalho e uma Segurança Social que “vacine” a população da pobreza mesmo em situações como a crise pandémica? 


CRISE POLÍTICO-JURÍDICA

Estado de Emergência, Direitos Fundamentais, Proteção de Dados. Giorgio Agamben já há muito que observava a tendência do cenário de privação de liberdades e do estado de exceção como paradigma de governo. O tratamento de informações atinge agora um patamar ilimitado de possibilidades – os nossos sinais vitais, as nossas expressões faciais, por onde andamos, o que consumimos, tudo pode ser controlado por uma “app” para a qual não há segredos. A soberania, no sentido clássico, exercia-se pelo controle das fronteiras e sobre um espaço territorial; nos nossos tempos exerce-se através do controle de BIG DATA e num espaço virtual que não conhece fronteiras. De que forma, a segurança pode prevalecer sobre a privacidade e os direitos fundamentais?


CRISE ECOLÓGICA

O vírus do Antropoceno? Para uns, um acontecimento biológico, como outras pandemias da história. Para outros, um evento do Antropoceno. A questão é, em que medida as pandemias podem ser favorecidas pela interferência da mão-humana no meio-ambiente (criação industrial de animais, destruição de ecossistemas e de espécies selvagens, fortalecimento das bactérias através do  consumo de antibióticos para engorda e prevenção de infecções nos animais, mudanças climáticas que levam espécies tropicais transmissoras de patógenos a encontrarem um habitat favorável em regiões temperadas, etc.). A natureza que tentamos destruir resiste, "vinga-se", "apresenta-nos a fatura". Que outro modo de vida e de relação com a “Mãe Terra” é possível?


ARTE NA PANDEMIA, PANDEMIA NA ARTE

Várias obras literárias retratam as nossas emoções e o nosso modo de vida no contexto de pandemias, assim como criticam a administração política das pandemias, o racismo, o xenofobismo e o ableísmo (discriminação de pessoas com qualquer deficiência). Algumas dessas obras literárias são: A Ilíada de Homero, O Decameron  (1353) de Giovanni Boccaccio, O último Homem (1826) de Mary Shelley, o conto A Máscara da Morte Rubra (1842) de Edgar Alan Poe,  A Peste (1942) de Albert Camus, A Dança da Morte (1978) de Stephen King, Febre (2016) de Deon Meyer,  Severance (2018) de Ling Ma,  a trilogia Terra Fraturada (2015, 2016, 2017) de N.K. Jemisin, Terra Nullius (2018) de Claire G. Coleman e  o conto Inventário (2017) de Carmen Maria Machado. Que arte - literatura, cinema, animação, fotografia, pintura, escultura e mesmo arquitetura - está a pandemia atual a produzir?


 

Soraya Nour Sckell, Curadora Científica
 

Cosmopolitanism: Justice, Democracy and Citizenship without Borders

FCT - Fundação para a Ciência e a Tecnologia, I.P, Portugal

PTDC/FER-FIL/30686/2017

CFUL - Centre of Philosophy, University of Lisbon

CEDIS NOVA School of Law